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21 de Setembro de 2019

A recaída faz parte do processo de restauração do dependente

A recaída tão temida por todos, na verdade, faz parte do processo de recuperação do dependente e dificilmente deixará de acontecer, principalmente quando a dependência é pelo crack.

Maria da Conceição Damasceno Cinti, Advogado
há 6 anos

A recada faz parte do processo de restaurao do dependente

A recaída faz parte do processo de recuperação de um dependente químico. Essa constatação me faz lembrar a história do filho pródigo. Na Bíblia essa história é uma das que mais me fascinam. Fico a imaginar aquele pai generoso e vigilante, com o olhar fixo na estrada, num misto de ansiedade e esperança para reencontrar o filho perdido.

De longe o pai vê o filho e corre para abraçá-lo. No seu dedo coloca um anel que significa o seguinte: esse garoto tem dono, ele é meu, é responsabilidade minha, intransferível, ele é meu e nada me fará desistir dele! Estou disposto a quebrar qualquer agenda para deixá-lo de pé novamente.

Isso se passa na Bíblia porque na prática não são muitos os pais que estão dispostos a investir e a resistir na busca pela cura dos seus filhos. Há pais que tratam com diferença visível, mas de forma velada, os filhos menos inteligentes e sem dotes físicos, e o infeliz que enveredou pelo caminho da drogadição que é duramente discriminando. Fato como esses até parece invenção, tipo brincadeira grosseira, mas existe aos montes e geralmente essa garotada fica anos a fio frequentando consultório psiquiátrico, quando a cura de todos os seus males seria o peito, o afeto, a atenção e a disponibilidade do pai para ouvi-lo.

A recaída tão temida por todos, na verdade, faz parte do processo de recuperação do dependente e dificilmente deixará de acontecer, principalmente quando a dependência é pelo crack. As recaídas acontecerão quantas vezes forem necessárias para ser aprendida. Sem esse recurso usado pela psicologia a recaída deixa de ser terapêutica.

A maior dificuldade da recaída do dependente não está nele próprio, e sim, na resposta sempre violenta e inadequada por parte dos pais, familiares e até de amigos, que pensam em juntar cacos humanos com críticas, pressão e, em alguns casos, até com ameaças, ao invés de reforçar a resistência que se exauriu e a impotência que tomou conta do combalido recuperando.

A minha postura nesse caso é nunca desistir até que a restauração aconteça. Um adicto precisa de um tempo para se adaptar à presença de pessoas estranhas ao seu mundo. São várias as mudanças a serem enfrentadas no processo de recuperação: o espaço físico onde está sendo realizado o tratamento; os novos comportamentos que deverá adotar nesse novo espaço, como a aceitação e incorporação da imprescindível disciplina. Por isso, é comum que ele se sinta invadido, confuso e passível a oscilar entre permanecer no tratamento ou dar uma pausa. Este tipo de incidente de percurso é como uma tragédia anunciada e pode ocorrer apesar de todo apoio recebido, mas o recuperando sempre retornara se tiver sido cativado e essa é a importância do amor despendida pela família, pelos amigos e pelos profissionais que o acompanham.

Diante dessa realidade e pela experiência que tenho em recuperação de dependentes e daqueles já envolvidos com a criminalidade, a melhor opção para cativá-los é se disponibilizar e fazê-lo sentir que ele poderá retornar e que será bem-vindo para finalizar seu programa de restauração a qualquer momento. Não há como restaurar um dependente químico com prazo determinado ignorando as diversidades dos efeitos colaterais provocados pelas drogas que ele usa não apenas no seu físico e na sua mente, mas é necessário considerar a mistura de sentimentos que ele precisa enfrentar e que são únicos e próprios de cada pessoa.

Quase todos os monitores que faziam parte da minha equipe multidisciplinar eram ex-dependentes, por essa razão têm outra leitura sobre esse incidente de percurso. Compromissados com a restauração, em virtude da experiência que viveram, precisamente nesse momento esse tipo de profissional também se torna a pessoa que tem mais autoridade junto ao recuperando para persuadi-lo a dar continuidade ao tratamento.

Com muita habilidade, uma equipe compromissada, tem condições não apenas de reverter a crise que levou o dependente à recaída, mas minimizar o sofrimento moral e psicoemocional causado por ela, além de usar toda a dor do retrocesso para aprender e reforçar os sentimentos e o pensamento em favor da vida.

O crack por si só já é excludente, pois transforma a pessoa mais dócil em alguém extremamente arredio e sem autocontrole. Esses fatos somados à compulsão pela “pedra” que é aterrorizante e intermitente fazem com que o dependente do crack seja mais propenso a recaídas que os usuários de outras drogas. Contudo, isso não quer dizer que os demais tipos de dependência não envolvam recaídas. Os operadores do mundo da drogadição sabem que a recaída faz parte do percurso de restauração de qualquer dependente de substâncias psicoativas e precisa ser administrada de forma a nunca humilhá-lo, sem deixar que o paciente pense que o problema é com ele, que ele é fraco, e ao invés disso fazê-lo rever o percurso que ele fez até a recaída, o que o ajudara a descobrir onde houve a falha e como reforçá-la para evitar novas recaídas.

Nunca desistir é a recomendação aos pais. Na luta do dia a dia e utilizando as técnicas de motivação com persistência, o recuperando sentirá que não está sozinho e assim ele não perderá a esperança, pois sentirá que todos ao seu lado confiam que ele poderá reverter esse quadro. De fato, o recuperando precisa se sentir amparado e nunca censurado.

Pais combatentes e equipe vocacionada nunca desistirão e serão gratificadas com a melhor láurea: ver seu querido, seu paciente pronto para lutar o novo round da vida. A recuperação de fato acontece: é difícil, mas é possível, para aqueles que decidem pagar o preço.

Somente diante de tantas nuances e de tantos detalhes que envolvem o tratamento de um dependente químico, e aos quais muitas vezes não estamos atentos, principalmente quando não conhecemos de perto esse processo de recuperação e resgate de vidas, é que podemos avaliar os programas de recuperação de dependentes desenvolvidos pelo poder público, a exemplo do Cartão Recomeço, lançado pelo Governo de São Paulo em maio deste ano. Levando em consideração o fato de que a reação e os sentimentos variam de acordo com cada dependente químico (já que esses sentimentos são originados pelo tipo e pelo tempo de uso de determinada droga) como criar um programa com perfil de público e tempo de atendimento pré-definidos?

Para quem conhece de perto o duro caminho percorrido para se alcançar a recuperação sabe que tais exigências são incompatíveis com a realidade e que muito dificilmente o programa conseguirá resultados exitosos. Sem falar em outras limitações que também podem ser alvo de críticas no programa Cartão Recomeço por tornarem a iniciativa passível de fracassar.

O que mais intriga no programa Cartão Recomeço é que ele não deixa nítida a continuidade no tratamento, que corresponde as diversas fases importantes para que o dependente se autodiscipline e alcance o controle sobre suas emoções, sentimentos e pensamentos, incluindo a forma como o dependente lidará com suas recaídas e o que aprenderá com cada uma delas, afinal, com certeza cair e se reerguer faz parte do processo que o conduzirá à liberdade e a uma vida mais digna.

5 Comentários

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Recaida não faz parte do processo de recuperação o programa é perfeito e não te induz ou te da brecha para recaida aonde vc deixa de viver a recuperação e recai não tem literatura 12 passos de A.A N.A ou 12 passos para cristão ou qualquer outra literatura q comunidades terapeuticas usem em um processo de reformulação os indices de recaida são grandes pessoas retornando a cts ou presos ou mortos mas pq deixaram de viver a recuperação sairam de um programa q muitos se mantem limpo por muitos anos vivendo só por hoje. continuar lendo

Cocaína Tratamento http://cleuzacanan.com.br/tratamento/cocaina-tratamento/

A cocaína é um extrato das folhas da coca, planta comum na Cordilheira dos Andes e que é usada há milhares de anos para manter a saúde dos habitantes em grandes altitudes, servindo como substância estimulante para a sobrevivência dos povos andinos.

Em sua fórmula concentrada, no entanto, torna-se uma droga estimulante, que tanto pode ser aspirada quanto injetada, provocando instantaneamente no usuário de cocaína uma sensação de grandiosidade, de euforia, de extremo poder e de excitação, com consequente aceleração do pensamento, provocando agitação.

Os efeitos da cocaína trazem alteração do humor, fazendo com que o usuário tenha a fala acelerada, com pupilas dilatadas. Além disso, um efeito constante ao usar cocaína é a coriza, com entupimento das vias nasais.

A sensação provocada pelo uso da cocaína duram pouco tempo, exigindo que o usuário passe a consumir quantidades cada vez maiores da droga para permanecer no estado provocado pelo seu uso.

O usuário de cocaína sente imediatamente os efeitos da substância, tendo insônia e dificuldade de concentração. Com o uso continuado, o usuário apresenta emagrecimento e, na falta do consumo, sente uma sensação de vazio, começa a passar por graves momentos de depressão e de ansiedade, provocando, em muitos casos, pensamentos persecutórios, sentido que pessoas ou autoridades estão atrás dele e que sofrerá os piores tormentos se for pego.

Quando entra na fase de abstinência da cocaína, o usuário sente novamente o desejo de usar a droga, buscando aliviar e evitar os desagradáveis efeitos de sua falta, e é assim que acaba desenvolvendo a dependência. continuar lendo

Muito boa a explicação esclarecedora. Tem gente que não entende como é a luta interna e externa do dependente que quer deixar de ser assim e alcançar um estilo de vida saudável e prazeroso sem precisar usar nenhum tipo de droga.

E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela. Portanto, tornai a levantar as mãos cansadas, e os joelhos desconjuntados, E fazei veredas direitas para os vossos pés, para que o que manqueja não se desvie inteiramente, antes seja sarado.

Hebreus 12:11-13 continuar lendo

Amei ter lido sobre o processo que se dá a recaída, pois eu estagiei em uma comunidade terapeutica e, eu sempre assistia a recaídas e eu compreendia que era necessária para que houvesse um fortalecimento. É claro, que o dependente retornando para seu tratamento. Deus abençoe sua Vida Maria da Conceição Damasceno Cinti, verdadeiramente temos que passar amor para os adictos desde o inicio do tratamento, que acontece no acolhimento, eles têm que saber que apostamos neles como vitoriosos. continuar lendo

Bem vinda Bete! Obrigada por seu comentário. Cada pessoa que entende que o dependente é uma pessoa fragilizada e necessita do nosso afeto soma para que juntos possamos acabar com o preconceito e enfrentarmos essa árdua luta. continuar lendo